T(alvez nada faça sentid)O
Ideias e Ideais
Idealmente este seria um lugar para guardar ideias, mas o mais provável é ser o sítio onde ideias são enterradas, talvez com o propósito de fazer nascer novas ideias de uma terra desprovida de qualquer sentido. Talvez, lá no fundo, sejam elas que nos dão o sentido que não temos.
terça-feira, 13 de maio de 2014
Alzheimer
Alzheimer
She was beautiful. Shiny white skin, with the tone of a thousand sunsets in heaven, had lost its days and dived into the dawn. Her eyes, once green and bright as the moon, were now owners of an empty look through the dusty window. The hair of a goddess was growing no more from her head and warning spots were rising through her cheeks and neck. Her lips, once fleshy and red, the perfect image of sensuality, were now dry and opened, losing words to the ground.
"I remember...", she muttered smoothly, with a voice dragged by time.
"what do you remember?", he asked, with tears begining, growing and ending in his insides.
"...fearing...", she continued, not listening.
"To fear what, mother?"
"...to forget...". Her eyes shake a little, but the same expression of death was craved in her face. "...how to remember.", she concluded.
"I know...", he whispered kindly, holding her hand, perhaps for the last time.
"But you know?...", she suddenly asked, without breaking eye contact with the outside.
"Yes?", he asked, just for the sake of asking, disproved of any kind of hope.
"I remember...", she repeated.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
domingo, 22 de setembro de 2013
O Síndrome da Má Língua
Quinhentos e
quarenta e sete amigos online. Sete janelas de chat abertas. Ia deslizando
página abaixo como se deslizasse pelo tempo, passando por imagens, vídeos,
frases. Nada do que via se retinha na sua mente por mais tempo do que aquele
que passava enquanto via. Os seus olhos, cansados – duas da manhã –
penduravam-se na ironia forçada, nos conselhos estúpidos, nos desabafos
solitários, nos decotes exagerados, nos estilos arranjados à força, nas
tentativas humanas pela integração em grupos; mas não havia sinal dele.
“Ele tinha
prometido que me adicionava. Qual é a dele? E esta gaja? Deve pensar que por
ter mais de 1000 amigos já é alguém. É só gajos a comentar e a pôr gosto nas
fotos! E que bela coincidência ela estar solteira! Que exibicionista.”
A casa estava em
silêncio; os irmãos mais novos dormiam, os pais ressonavam, os vizinhos
repousavam inconscientemente.
3 da manhã.
“Amanhã tenho de me levantar às oito... ora, oito menos três é cinco... vá,
cinco e meia se esperar que a mãe me acorde. Mas amanhã nem o vou cumprimentar,
a não ser que ele o faça primeiro... sede... onde está o copo? Era este o
meu?... era. Amanhã é português... almoço, Inglês e matemática... boa,
esqueci-me dos T.P.C.... olha, que se lixe, peço ao Miguel para me ajudar
durante Inglês...”
Acorda Ana! Já
estás atrasada!
“Pijama...
camisola... calças, meias... de manhã pareço sempre mais magra no espelho do
quarto...”.
Bom dia,
preguiçosa! Bom dia, ranhoso!
“Estava mesmo a
precisar de lavar a cara... olha esta espinha! Desculpa mas não podes ficar na
minha cara...Á!”
O pai olhava
para o jornal enquanto automaticamente repetia o mesmo “Bom dia” de todos os
dias. Os irmãos devoravam cada um a sua torrada. Um era esquerdino, o outro
destro. Eram gémeos e vestiam-se de igual, sentados frente a frente. Pareciam o
reflexo um do outro. A mãe reclamava e falava mais do que todos juntos. O pai
levou a filha à paragem de autocarro. A mãe levou os filhos à escola.
Ana sentou-se
num dos bancos de trás do autocarro, e ali, como todos os dias, a sua mente
despertou das profundezas, como se de uma prisioneira se tratasse, querendo
provar uma nesga de liberdade. Analisou as pessoas que entravam e saiam. Deduziu
como seriam as suas vidas. Viu os raios de sol formarem um arco-íris na janela.
Pensou na física por detrás. Não chegou muito longe. Ponderou por momentos se a
vida teria sentido. Saiu do autocarro sem respostas, trancando de novo esse seu
lado filósofo nas profundezas do seu ser. Pôs os auriculares. Justin Bieber. Só
naquele curto percurso se permitia ao luxo de ouvir o que realmente gostava. As
amigas são mais adeptas de Muse e outros tipos de rock, julga-la-iam.
Desligou o Ipod. Bons dias às amigas. Já falavam de alguém - não
costuma ser bem.
Entrou na
conversa, e não saiu. Sim, ela é tão gorda. Credo, ganhou tantas borbulhas!
Ouvi dizer que é porque fuma! O namorado influenciou. É tão burrinha, coitada.
Ele apareceu.
Nem a olhou nos olhos. Reprimiu os pensamentos, reprimiu as palavras.
O professor de
Português falava de um tal Saramago. De um tal ensaio que ele fez. Depois
virou-se para a gramática. “Ele tem sempre aquele tique de semicerrar os olhos
... E nunca vê o João e o Ricardo a jogarem Candy Crush... se não estivesse tão
perto também jogava... estou com pouca bateria, e a ficar com pouco espaço para
desenhar no caderno...”.
Almoço. Um novo
alvo a criticar.
Inglês. “ O
Miguel é sempre tão prestável. Tenho a certeza que está caídinho por mim.”
Matemática.
“Isto irrita-me
tanto! Para que raio é que esta merda serve? Triângulos e mais triângulos!”.
Autocarro e
silêncio.
Sem estar
condicionada, apesar de não o saber, lá libertou a mente outra vez, por mais
dez minutinhos, enquanto o corpo descontraía e os olhos paravam quietos.
Existência, moral, ética, o Universo e o infinito foram os tópicos desta
viagem, interrompidos apenas pela mensagem do pai.
Casa.
Os irmãos
brincavam, a mãe arrumava, o pai... não sabia, nem se interessava.
Facebook.
Girar a roda no
meio do rato. Youtube: One Direction. As colunas estavam bem alto, sem
vergonha. “ Não acredito... ele está numa relação, e é complicado... porque é
que ele não me disse?! Queria ter-me numa prateleira... Tenho que contar à
Joana!”
Uma da manhã. Já
todos dormiam. Ana desabafara tudo. Estava cansada, queria dormir. Foi jogar
Candy crush. Quando o jogo lá permitiu, deitou-se sem conseguir esquecer o
rapaz. Imaginou um milhão de coisas que podiam ter acontecido na vez do que
aconteceu. Adormeceu.
Sonhou com nada
e acordou.
Arrastou-se até
à casa de banho e olhou-se ao espelho.
Uma borbulha,
murmurou com voz de sono. Arregalou os olhos. Porra, comentou, mas que cena!
Levou as mãos à cabeça. O que se passa?, perguntou, de voz a revelar preocupação.
Cala-te! Cala-te! Cala-te! Nada funcionava. Um frenesim de palavras
invadiam-lhe a boca.
Está tudo bem,
Ana?
Não sei! Acho
que tenho que me deitar!
Deitou-se. Ia sussurrando palavras, sem as controlar. Faziam sentido.
Eram uma longa cadeia de ideias que reflectiam como se sentia, o que via, o que
imaginava... quase pareciam os seus próprios pensamentos.
Não... não pode
ser... murmurou. Devo estar num daqueles dias em que estou demasiado
desnorteada para pensar direito.
Levantou-se da
cama e foi à cozinha onde já toda a família comia.
Que seca, já
acabaram os cereais... passa-me o leite... dá-me uma colher. Nada foi demasiado
invulgar. Sentia-se um pouco mecânica demais, como se não soubesse o que iria
dizer antes de o dizer, mas acertando sempre no que tencionava dizer. Era
estranho, mas até o pai a deixar na estação não se sentiu de todo desagradável.
Só quando entrou no autocarro, apinhado de velhotes e jovens, é que as coisas
começaram a ficar absurdas. No banco do costume, olhando pela janela, a voz
soltou-se qual a de um orador experiente:
O tempo não
passa para todos de igual forma... É claro que a nossa própria noção de tempo
nem é a mais correcta. Somos seres tridimensionais, e imaginamos o tempo como
uma quarta dimensão que percorremos num só sentido, mas se fossemos
bidimensionais, então a dimensão que intuímos como sendo a profundidade seria o
tempo. Desta maneira, o tempo é ainda mais relativo do que as teorias de
Einstein sugerem. Depende do número de dimensões que são necessárias para se
compreender uma realidade de determinado ser consciente. E falando em
consciência, como posso saber que vocês que me olham têm uma...?
E assim
continuou a palestra acerca dos temas mais profundos no autocarro, dada pela
Ana, aluna do 11º ano de Ciências. Todos a observavam com estranheza e
ouviam-na com reflexão, à medida que ela corava mais e mais, sem se conseguir
controlar.
Finalmente,
chegando ao seu destino, pendurou os auriculares nas orelhas e pôs quase no
máximo o senhor Bieber. Automaticamente começou a cantarolar as letras, no
ritmo certo mas antes do tempo.
As amigas
surgiam no seu campo de visão. Rapidamente desligou o Ipod. Uma ou outra
palavra se soltou da sua boca até as alcançar, mas quando a cumprimentaram tudo
o que conseguiu fazer foi sorrir e pensar “Bom dia”.
Passou o dia
muda, murmurando por vezes uma ou outra coisa inaudível.
Quando o dia
estava no fim, ela já estava em pânico devido à persistência da sua condição.
Tenho de ir ao médico, murmurava repetidamente, para ouvir de seguida a mesma
frase ecoada na sua mente.
A Joana
perguntou-lhe o que se passava com ela, ao que ela pensou:”Não sei! Sempre que
quero falar, penso! E não consigo controlar o que digo!”, permanecendo em
silêncio, de olhos arregalados.
Acho que estás
muito estranha. Deves estar a precisar de repousar. Ana acenou com a cabeça.
Nova palestra no
autocarro. Desta vez, os que já a tinham ouvido de manhã, aplaudiram.
O pai foi buscá-la à paragem. Ana contou-lhe o seu dia, explicando que
não se estava a sentir bem e que no dia seguinte queria ficar em casa a
repousar. O pai não percebeu muito bem, mas concordou com a filha que seria o
melhor a fazer.
Nessa noite, Ana
adormeceu inquieta, procurando distrair-se dos próprios murmúrios – por vezes
sussurros – que deslizavam da sua boca em filinha indiana.
Na manhã seguinte acordou com os
gémeos aos pés da cama, a observá-la com entusiasmo.
Então? Não pares
agora! Queremos saber como acaba! Consegues matar o grilo gigante com a espada
mágica, ou não?
“Mas que raio
estão para aí a dizer?”. Silêncio nervoso. Já sei, disse Ana de súbito, indo
buscar um papel e um lápis.
O que raio estão
para aí a dizer? Verbalizou a jovem enquanto escrevia a mesma frase no papel.
Tu falaste
enquanto dormias! E estavas a contar uma história mesmo espectacular!
Imediatamente
antes de tomar as conclusões óbvias, ouve-se um estrondo vindo da cozinha. A
mãe tinha acabado de lançar uma jarra de vidro contra a parede, por pouco
falhando o pai, que não se calava.
A mãe saiu de
casa, furiosa, magoada. O pai levou os miúdos à escola e Ana - que não teve coragem de se pronunciar de modo a ficar em casa - à paragem, nem por
um segundo se calando. Estava cada vez mais assustado.
Na paragem,
sozinha, Ana concluiu: o pai também foi infectado.
Aquele dia foi
como o dia anterior, talvez melhor pois Ana já controlava melhor o que dizia,
ou pelo menos quem a ouvia. Ia construindo as suas teorias sobre o que se
passaria, mas não chegava a grandes soluções que resolvessem o problema. A
ideia de escrever o que pretendia dizer, no entanto, revelou-se útil durante as idas ao quadro em
Matemática.
Em casa o
ambiente estava negro. O pai e a mãe não se podiam ver. O pai fechara-se no
quarto, para evitar dizer o que não queria a quem não queria, soltando um berro
de quando em vez.
No dia seguinte,
a mãe acordou a discutir sozinha. Reclamava de tudo e mais alguma coisa, dando
apenas tempo para respirar.
No dia depois
foi a vez dos gémeos. Ana reparou que não tinham mudado muito, para além do
facto de não conseguirem pregar partidas um ao outro, pois denunciavam-se
sempre antes. Afinal de contas eram crianças. Costumam ser bastante
transparentes.
O mês foi
passando e toda a gente da vida da Ana foi ficando contagiada com o Síndrome da
Má Língua – o nome que ela lhe deu. Ana ainda tentou explicar aos outros
infectados como se poderiam controlar, mas as pessoas conseguiam ser
genuinamente más – piores do que a língua – e iam dizendo literalmente tudo da
boca para fora, sem dar tempo a segundas reflexões. Assim era esta doença. Ana
não passa de uma chica-esperta com a mania que sabe resolver tudo, só porque
não está tão infectada como a gente, diziam.
Ao fim de apenas dois meses, os hospitais e centros de saúde da região
estavam entupidos. Nos meios de comunicação já se falava no problema.
Chamavam-lhe “Fala descontrolada”. Claramente não o caso, mas quem seria Ana
para impor a sua ideia. Pequenas mentiras eram semeadas e enormes verdades eram
colhidas, juntamente com as tempestades que daí advinham. As redes sociais
nunca haviam testemunhado uma alteração de estado civil em massa, assim como
nunca se tinha assistido a uma discussão em massa por todas as ruas do país.
Como é típico da natureza de quem se julga poderoso, a violência não tardou a
instalar-se, e em pouco tempo as ruas eram trincheiras de um enorme campo de
batalha. Mães discutiam com filhos que discutiam com namoradas que discutiam
com amigas que discutiam com os pais que discutiam com avós que discutiam com
deus, senhor desses senhores, que discutia com o diabo que discutia com os
anjos que discutiam com mães que discutiam com filhos...
O mundo era uma
discussão, e já ninguém sabia o que se discutia. Ninguém se calava, ninguém
engolia o orgulho – mesmo que o quisessem, não podiam.
Rapidamente se
chegou à conclusão que nunca ninguém iria ganhar a discussão, pois toda a gente
era dona da sua verdade, toda a gente era dona da sua mentira, mas ninguém era
dono da humildade. Então, como um caracol desconfiado, o povo fechou as portas
ao povo. A sociedade fragmentou-se em famílias que confiavam umas nas
outras. Conjuntos de pessoas que iam desde um triste elemento que consigo mesmo
discutia, até conjuntos de dez – parecia ser o máximo de elementos que se podia
haver sem gerar conflitos.
Ana acordou
sobressaltada. O coração disparava o sangue como se fosse um canhão. A cabeça detinha
todos os pensamentos, não a boca.
Estás ofegante!
Sonhaste com o quê?, perguntou o pai que passava pelo quarto.
Ana olhou para o
pai, pensativa.
Com
nada, penso eu.
Giuseppe Jordão
Giuseppe Jordão
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
SERES
Bob
nem sempre sentira que a sua vida tinha sido feliz, realizada ou significativa.
Mas, às portas da morte, com os seus amigos e familiares mais próximos à volta
da sua cama de hospital, de rugas em torno dos olhos e escorrendo por toda a
cara, sabia que tinha, afinal, sido.
A
mulher chorava, procurando dizer as palavras mais importantes de que se
lembrasse antes que a luz dos olhos do marido se desvanecesse; os filhos,
procurando reconfortar a mãe, contavam histórias de quando eram crianças e de
como o pai lhes construiu uma casa na árvore, de como os levou a ver o rato Mickey ao vivo e lhes
ensinou tudo o que ele próprio conseguiu aprender; os amigos mais chegados
partilhavam a mesma tentativa de fazer os últimos minutos de Bob minimamente
felizes.
Por
fim, o coração calou-se, a luz esmoreceu, e Bob não sentiu nada.
A
vida de Bob começou numa cama de hospital, rodeado pelos seus familiares e
amigos mais próximos. À medida que os minutos desde o seu nascimento iam
passando, Bob sentia-se mais consciente. Em pouco tempo tinha a sensação de ser feliz e
realizado, mesmo antes de se aperceber de que sabia exactamente como a sua vida
dali para a frente se iria desenrolar.
Os
meses foram passando e as dores desaparecendo, surgindo uma notícia boa da boca
de um enfermeiro todos os dias.
Num
piscar de olhos estava na casa onde nunca estivera, mas onde sempre soube que ia
morar. Nasceu já com mulher, de quem sabia tudo e a quem podia contar tudo, e
três filhos, dois homens e uma mulher, que amava muito.
Passaram
dois anos e Bob ia enrijecendo, ganhando
mais força, apesar de nunca se conseguir lembrar do que já vivera, mas, como
esse mal parecia ser partilhado com toda a gente, rapidamente também dele se
esqueceu.
Pratos
partidos juntavam os seus cacos no chão quando Bob passava por eles para os
apanhar. O cão do vizinho corria sempre à frente dos gatos. A mancha de
humidade na casa de banho ia diminuindo. Os ferros iam clareando, desenferrujando.
Nas ruas formavam-se poças de água no Inverno que precipitavam para o céu,
formando as mais pomposas nuvens.
O
seu trabalho na oficina era como sempre soube que iria ser: inúmeros relógios
chegavam todos os dias de carrinhas, girando os seus ponteiros do doze para o
nove, do nove para o seis, do seis para o três e do três para o doze. Por que
motivo giravam nesse sentido? Sabia lá, e nem tempo tinha para divagar sobre
isso. Bob apenas os desmantelava, com todo o cuidado, peça a peça, e guardava-as
bem organizadas para depois ir vender à loja que dava bom dinheiro por elas. No
fim de cada mês, Bob entregava um cheque ao seu patrão e ia-se embora,
gradualmente menos ansioso.
Na
volta para casa, todas as manhãs – avisava o relógio serem seis e um quarto –, Bob via todo o tipo de pessoas durante a sua caminhada de quinze minutos que
distanciavam a casa do trabalho. Cruzavam-se com ele, surgindo de trás, olhando
para ele fugazmente e rapidamente se afastavam tornando a olhar para o chão,
esquecendo que alguma vez o tinham visto, assim como a ele sucedia. De lés a lés lá achava uma cara conhecida,
que o cumprimentava, mas logo logo já não tinha acontecido.
Com
sono e movido sabe-se lá por que forças, Bob chegava a casa sempre às seis da
manhã, descalçava-se e pousava a mala, ia à casa de banho lavar os dentes,
depois à cozinha deixar duas torradas num prato e um pouco de leite num copo,
tornava ao quarto, onde a sua mulher dormia pacificamente, despia-se, vestia-se e enfiava-se debaixo dos
lençóis, batendo no despertador que começava então a tocar para se calar vinte
segundos depois.
A
sua consciência esfumava-se todas as noites abruptamente, mas o repouso era
agradável. Isto até acordar, cansado e - quando a mulher o desejava
- ofegante.
E
assim começavam todos os dias de Bob. Escuro, cada vez mais claro. À volta do
jantar com a mulher ou a ajudar o filho mais novo com os trabalhos de casa.
Aos
fins-de-semana ia às grandes superfícies comerciais com a mulher e o filho mais
novo enquanto, sabia ele, os outros estavam a viver a vida académica, longe de
casa. Só queria que tudo corresse como sabia que iria correr. Mas divagava
agora eu... Ora, vendiam ele e a mulher os produtos que resultavam das
refeições. E que altos preços tinham! Mas felizmente iam baixando. Bob recebia então o dinheiro que ia
depois guardar no banco para
posteriormente dar ao seu patrão.
Passados
dois ou três anos, a filha foi morar com Bob, a sua mãe e o seu irmão mais novo
que acabara de entrar na primária.
Passados
mais outros três ou quatro foi a vez do filho mais velho, estaria a filha a
entrar no 3º ciclo e o mais pequeno a terminar a primária.
Foram
a Paris cansados, mas felizes, e voltaram para lá de entusiasmados.
Num
verão quente, Bob desmantelou uma casa numa árvore que por ali andaria, se as árvores, de facto, andassem. Guardou
as tábuas na garagem para depois as ir vender numa loja. O dinheiro ia sempre
para o seu patrão.
Certo
dia, sabia ele que tinha de ir ao cemitério: os preparativos para o nascimento
da sua mãe. A mãe nasceu dois dias depois.
Chorou de alegria.
Dois
anos depois foi a vez do seu pai. Tornou a chorar.
Assistiu
a outros nascimentos durante os anos
seguintes, como os dos pais da mulher, e ouviu falar do violento nascimento do
seu irmão, dentro de um carro. Dois outros indivíduos nasceram ao mesmo tempo,
no carro da frente.
O
filho mais novo, entretanto, tão pequeno e necessitado estava, entrou no ventre
materno, com assistência médica, claro – afinal de contas era o século XXI - , e
lá ficou, mingando até ter desaparecido juntamente com a barriga volumosa da
mãe. Foi como se nunca tivesse lá
estado.
A
filha seguiu as passadas do irmão mais novo, e o mais velho seguiu as passadas
das suas passadas. Foram passado.
Depressa
Bob se viu na escola. Conhecia pouco da mulher. Conhecia imensa matéria.
Conhecia cada vez menos de si próprio.
A
dada altura, a meio do 9º ano, ele e a mulher deixaram de se conhecer. Não
sentiu nada. Nunca aconteceu. Não teve três filhos maravilhosos. Nunca
desmantelou relógios. Nunca viu os pais nascer. Nunca soube o que é não ter
vontade de ir trabalhar e ir na mesma com energias vindas sabe-se lá de
onde. Só sabia que sabia onde ia acabar
a sua vida.
Namoros
breves começavam sem aviso, normalmente com uma discussão parva e infantil, e
terminavam com um ritual social de risinhos e olhares, comentários e
gargalhadas.
Os
seus pais sempre lhe haviam de dizer: dá tempo ao tempo, mas esses conselhos
perdiam-se na pré-adolescência.
Certo
dia, quando chegava da escola, onde
tinha aprendido que no fundo das cadeias alimentares estavam os seres
heterotróficos e no topo os autotróficos – para depois se esquecer – os pais
ensinaram-lhe a lenga-lenga do tempo:
“O tempo perguntou ao
tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem
tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”
Mas
Bob, apesar de muito amar os pais, nunca achou o sentido do tempo.
No
entanto este – o tempo – achou e acha e achará sentido em todos os que têm a
sorte de o percorrer. Foi uma das conclusões que Bob não teve tempo de tirar.
Bob
terminou os seus dias num mundo estranho e vago de cores e ideias soltas.
Não
se lembra de onde veio.
Não
sabe para onde vai.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

