SERES
Bob
nem sempre sentira que a sua vida tinha sido feliz, realizada ou significativa.
Mas, às portas da morte, com os seus amigos e familiares mais próximos à volta
da sua cama de hospital, de rugas em torno dos olhos e escorrendo por toda a
cara, sabia que tinha, afinal, sido.
A
mulher chorava, procurando dizer as palavras mais importantes de que se
lembrasse antes que a luz dos olhos do marido se desvanecesse; os filhos,
procurando reconfortar a mãe, contavam histórias de quando eram crianças e de
como o pai lhes construiu uma casa na árvore, de como os levou a ver o rato Mickey ao vivo e lhes
ensinou tudo o que ele próprio conseguiu aprender; os amigos mais chegados
partilhavam a mesma tentativa de fazer os últimos minutos de Bob minimamente
felizes.
Por
fim, o coração calou-se, a luz esmoreceu, e Bob não sentiu nada.
A
vida de Bob começou numa cama de hospital, rodeado pelos seus familiares e
amigos mais próximos. À medida que os minutos desde o seu nascimento iam
passando, Bob sentia-se mais consciente. Em pouco tempo tinha a sensação de ser feliz e
realizado, mesmo antes de se aperceber de que sabia exactamente como a sua vida
dali para a frente se iria desenrolar.
Os
meses foram passando e as dores desaparecendo, surgindo uma notícia boa da boca
de um enfermeiro todos os dias.
Num
piscar de olhos estava na casa onde nunca estivera, mas onde sempre soube que ia
morar. Nasceu já com mulher, de quem sabia tudo e a quem podia contar tudo, e
três filhos, dois homens e uma mulher, que amava muito.
Passaram
dois anos e Bob ia enrijecendo, ganhando
mais força, apesar de nunca se conseguir lembrar do que já vivera, mas, como
esse mal parecia ser partilhado com toda a gente, rapidamente também dele se
esqueceu.
Pratos
partidos juntavam os seus cacos no chão quando Bob passava por eles para os
apanhar. O cão do vizinho corria sempre à frente dos gatos. A mancha de
humidade na casa de banho ia diminuindo. Os ferros iam clareando, desenferrujando.
Nas ruas formavam-se poças de água no Inverno que precipitavam para o céu,
formando as mais pomposas nuvens.
O
seu trabalho na oficina era como sempre soube que iria ser: inúmeros relógios
chegavam todos os dias de carrinhas, girando os seus ponteiros do doze para o
nove, do nove para o seis, do seis para o três e do três para o doze. Por que
motivo giravam nesse sentido? Sabia lá, e nem tempo tinha para divagar sobre
isso. Bob apenas os desmantelava, com todo o cuidado, peça a peça, e guardava-as
bem organizadas para depois ir vender à loja que dava bom dinheiro por elas. No
fim de cada mês, Bob entregava um cheque ao seu patrão e ia-se embora,
gradualmente menos ansioso.
Na
volta para casa, todas as manhãs – avisava o relógio serem seis e um quarto –, Bob via todo o tipo de pessoas durante a sua caminhada de quinze minutos que
distanciavam a casa do trabalho. Cruzavam-se com ele, surgindo de trás, olhando
para ele fugazmente e rapidamente se afastavam tornando a olhar para o chão,
esquecendo que alguma vez o tinham visto, assim como a ele sucedia. De lés a lés lá achava uma cara conhecida,
que o cumprimentava, mas logo logo já não tinha acontecido.
Com
sono e movido sabe-se lá por que forças, Bob chegava a casa sempre às seis da
manhã, descalçava-se e pousava a mala, ia à casa de banho lavar os dentes,
depois à cozinha deixar duas torradas num prato e um pouco de leite num copo,
tornava ao quarto, onde a sua mulher dormia pacificamente, despia-se, vestia-se e enfiava-se debaixo dos
lençóis, batendo no despertador que começava então a tocar para se calar vinte
segundos depois.
A
sua consciência esfumava-se todas as noites abruptamente, mas o repouso era
agradável. Isto até acordar, cansado e - quando a mulher o desejava
- ofegante.
E
assim começavam todos os dias de Bob. Escuro, cada vez mais claro. À volta do
jantar com a mulher ou a ajudar o filho mais novo com os trabalhos de casa.
Aos
fins-de-semana ia às grandes superfícies comerciais com a mulher e o filho mais
novo enquanto, sabia ele, os outros estavam a viver a vida académica, longe de
casa. Só queria que tudo corresse como sabia que iria correr. Mas divagava
agora eu... Ora, vendiam ele e a mulher os produtos que resultavam das
refeições. E que altos preços tinham! Mas felizmente iam baixando. Bob recebia então o dinheiro que ia
depois guardar no banco para
posteriormente dar ao seu patrão.
Passados
dois ou três anos, a filha foi morar com Bob, a sua mãe e o seu irmão mais novo
que acabara de entrar na primária.
Passados
mais outros três ou quatro foi a vez do filho mais velho, estaria a filha a
entrar no 3º ciclo e o mais pequeno a terminar a primária.
Foram
a Paris cansados, mas felizes, e voltaram para lá de entusiasmados.
Num
verão quente, Bob desmantelou uma casa numa árvore que por ali andaria, se as árvores, de facto, andassem. Guardou
as tábuas na garagem para depois as ir vender numa loja. O dinheiro ia sempre
para o seu patrão.
Certo
dia, sabia ele que tinha de ir ao cemitério: os preparativos para o nascimento
da sua mãe. A mãe nasceu dois dias depois.
Chorou de alegria.
Dois
anos depois foi a vez do seu pai. Tornou a chorar.
Assistiu
a outros nascimentos durante os anos
seguintes, como os dos pais da mulher, e ouviu falar do violento nascimento do
seu irmão, dentro de um carro. Dois outros indivíduos nasceram ao mesmo tempo,
no carro da frente.
O
filho mais novo, entretanto, tão pequeno e necessitado estava, entrou no ventre
materno, com assistência médica, claro – afinal de contas era o século XXI - , e
lá ficou, mingando até ter desaparecido juntamente com a barriga volumosa da
mãe. Foi como se nunca tivesse lá
estado.
A
filha seguiu as passadas do irmão mais novo, e o mais velho seguiu as passadas
das suas passadas. Foram passado.
Depressa
Bob se viu na escola. Conhecia pouco da mulher. Conhecia imensa matéria.
Conhecia cada vez menos de si próprio.
A
dada altura, a meio do 9º ano, ele e a mulher deixaram de se conhecer. Não
sentiu nada. Nunca aconteceu. Não teve três filhos maravilhosos. Nunca
desmantelou relógios. Nunca viu os pais nascer. Nunca soube o que é não ter
vontade de ir trabalhar e ir na mesma com energias vindas sabe-se lá de
onde. Só sabia que sabia onde ia acabar
a sua vida.
Namoros
breves começavam sem aviso, normalmente com uma discussão parva e infantil, e
terminavam com um ritual social de risinhos e olhares, comentários e
gargalhadas.
Os
seus pais sempre lhe haviam de dizer: dá tempo ao tempo, mas esses conselhos
perdiam-se na pré-adolescência.
Certo
dia, quando chegava da escola, onde
tinha aprendido que no fundo das cadeias alimentares estavam os seres
heterotróficos e no topo os autotróficos – para depois se esquecer – os pais
ensinaram-lhe a lenga-lenga do tempo:
“O tempo perguntou ao
tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem
tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”
Mas
Bob, apesar de muito amar os pais, nunca achou o sentido do tempo.
No
entanto este – o tempo – achou e acha e achará sentido em todos os que têm a
sorte de o percorrer. Foi uma das conclusões que Bob não teve tempo de tirar.
Bob
terminou os seus dias num mundo estranho e vago de cores e ideias soltas.
Não
se lembra de onde veio.
Não
sabe para onde vai.
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