quinta-feira, 12 de setembro de 2013

SERES

Bob nem sempre sentira que a sua vida tinha sido feliz, realizada ou significativa. Mas, às portas da morte, com os seus amigos e familiares mais próximos à volta da sua cama de hospital, de rugas em torno dos olhos e escorrendo por toda a cara, sabia que tinha, afinal, sido.
A mulher chorava, procurando dizer as palavras mais importantes de que se lembrasse antes que a luz dos olhos do marido se desvanecesse; os filhos, procurando reconfortar a mãe, contavam histórias de quando eram crianças e de como o pai lhes construiu uma casa na árvore, de como os levou  a ver o rato Mickey ao vivo e lhes ensinou tudo o que ele próprio conseguiu aprender; os amigos mais chegados partilhavam a mesma tentativa de fazer os últimos minutos de Bob minimamente felizes.
Por fim, o coração calou-se, a luz esmoreceu, e Bob não sentiu nada.

A vida de Bob começou numa cama de hospital, rodeado pelos seus familiares e amigos mais próximos. À medida que os minutos desde o seu nascimento iam passando, Bob sentia-se mais consciente. Em pouco tempo tinha a sensação de ser feliz e realizado, mesmo antes de se aperceber de que sabia exactamente como a sua vida dali para a frente se iria desenrolar.
Os meses foram passando e as dores desaparecendo, surgindo uma notícia boa da boca de um enfermeiro todos os dias.
Num piscar de olhos estava na casa onde nunca estivera, mas onde sempre soube que ia morar. Nasceu já com mulher, de quem sabia tudo e a quem podia contar tudo, e três filhos, dois homens e uma mulher, que amava muito.
Passaram dois anos e Bob  ia enrijecendo, ganhando mais força, apesar de nunca se conseguir lembrar do que já vivera, mas, como esse mal parecia ser partilhado com toda a gente, rapidamente também dele se esqueceu.
Pratos partidos juntavam os seus cacos no chão quando Bob passava por eles para os apanhar. O cão do vizinho corria sempre à frente dos gatos. A mancha de humidade na casa de banho ia diminuindo. Os ferros iam clareando, desenferrujando. Nas ruas formavam-se poças de água no Inverno que precipitavam para o céu, formando as mais pomposas nuvens.
O seu trabalho na oficina era como sempre soube que iria ser: inúmeros relógios chegavam todos os dias de carrinhas, girando os seus ponteiros do doze para o nove, do nove para o seis, do seis para o três e do três para o doze. Por que motivo giravam nesse sentido? Sabia lá, e nem tempo tinha para divagar sobre isso. Bob apenas os desmantelava, com todo o cuidado, peça a peça, e guardava-as bem organizadas para depois ir vender à loja que dava bom dinheiro por elas. No fim de cada mês, Bob entregava um cheque ao seu patrão e ia-se embora, gradualmente menos ansioso.
Na volta para casa, todas as manhãs – avisava o relógio serem seis e um quarto –, Bob via todo o tipo de pessoas durante a sua caminhada de quinze minutos que distanciavam a casa do trabalho. Cruzavam-se com ele, surgindo de trás, olhando para ele fugazmente e rapidamente se afastavam tornando a olhar para o chão, esquecendo que alguma vez o tinham visto, assim como a ele sucedia.  De lés a lés lá achava uma cara conhecida, que o cumprimentava, mas logo logo já não tinha acontecido.
Com sono e movido sabe-se lá por que forças, Bob chegava a casa sempre às seis da manhã, descalçava-se e pousava a mala, ia à casa de banho lavar os dentes, depois à cozinha deixar duas torradas num prato e um pouco de leite num copo, tornava ao quarto, onde a sua mulher dormia pacificamente,  despia-se, vestia-se e enfiava-se debaixo dos lençóis, batendo no despertador que começava então a tocar para se calar vinte segundos depois.
A sua consciência esfumava-se todas as noites abruptamente, mas o repouso era agradável. Isto até acordar, cansado e - quando a mulher o desejava -  ofegante.
E assim começavam todos os dias de Bob. Escuro, cada vez mais claro. À volta do jantar com a mulher ou a ajudar o filho mais novo com os trabalhos de casa.
Aos fins-de-semana ia às grandes superfícies comerciais com a mulher e o filho mais novo enquanto, sabia ele, os outros estavam a viver a vida académica, longe de casa. Só queria que tudo corresse como sabia que iria correr. Mas divagava agora eu... Ora, vendiam ele e a mulher os produtos que resultavam das refeições. E que altos preços tinham! Mas felizmente iam baixando.  Bob recebia então o dinheiro que ia depois  guardar no banco para posteriormente dar ao seu patrão.
Passados dois ou três anos, a filha foi morar com Bob, a sua mãe e o seu irmão mais novo que acabara de entrar na primária.
Passados mais outros três ou quatro foi a vez do filho mais velho, estaria a filha a entrar no 3º ciclo e o mais pequeno a terminar a primária.
Foram a Paris cansados, mas felizes, e voltaram para lá de entusiasmados.
Num verão quente, Bob desmantelou uma casa numa árvore que por ali andaria, se as árvores, de facto, andassem. Guardou as tábuas na garagem para depois as ir vender numa loja. O dinheiro ia sempre para o seu patrão. 
Certo dia, sabia ele que tinha de ir ao cemitério: os preparativos para o nascimento da sua mãe.  A mãe nasceu dois dias depois. Chorou de alegria.
Dois anos depois foi a vez do seu pai. Tornou a chorar.
Assistiu a outros nascimentos  durante os anos seguintes, como os dos pais da mulher, e ouviu falar do violento nascimento do seu irmão, dentro de um carro. Dois outros indivíduos nasceram ao mesmo tempo, no carro da frente.
O filho mais novo, entretanto, tão pequeno e necessitado estava, entrou no ventre materno, com assistência médica, claro – afinal de contas era o século XXI - , e lá ficou, mingando até ter desaparecido juntamente com a barriga volumosa da mãe.  Foi como se nunca tivesse lá estado.
A filha seguiu as passadas do irmão mais novo, e o mais velho seguiu as passadas das suas passadas. Foram passado.
Depressa Bob se viu na escola. Conhecia pouco da mulher. Conhecia imensa matéria. Conhecia cada vez menos de si próprio.
A dada altura, a meio do 9º ano, ele e a mulher deixaram de se conhecer. Não sentiu nada. Nunca aconteceu. Não teve três filhos maravilhosos. Nunca desmantelou relógios. Nunca viu os pais nascer. Nunca soube o que é não ter vontade de ir trabalhar e ir na mesma com energias vindas sabe-se lá de onde.  Só sabia que sabia onde ia acabar a sua vida.
Namoros breves começavam sem aviso, normalmente com uma discussão parva e infantil, e terminavam com um ritual social de risinhos e olhares, comentários e gargalhadas.
Os seus pais sempre lhe haviam de dizer: dá tempo ao tempo, mas esses conselhos perdiam-se na pré-adolescência.
Certo dia, quando chegava  da escola, onde tinha aprendido que no fundo das cadeias alimentares estavam os seres heterotróficos e no topo os autotróficos – para depois se esquecer – os pais ensinaram-lhe a lenga-lenga do tempo:

“O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”

Mas Bob, apesar de muito amar os pais, nunca achou o sentido do tempo.
No entanto este – o tempo – achou e acha e achará sentido em todos os que têm a sorte de o percorrer. Foi uma das conclusões que Bob não teve tempo de tirar.

Bob terminou os seus dias num mundo estranho e vago de cores e ideias soltas.

Não se lembra de onde veio.
Não sabe para onde vai.

Giuseppe Jordão

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