domingo, 22 de setembro de 2013

O Síndrome da Má Língua



Quinhentos e quarenta e sete amigos online. Sete janelas de chat abertas. Ia deslizando página abaixo como se deslizasse pelo tempo, passando por imagens, vídeos, frases. Nada do que via se retinha na sua mente por mais tempo do que aquele que passava enquanto via. Os seus olhos, cansados – duas da manhã – penduravam-se na ironia forçada, nos conselhos estúpidos, nos desabafos solitários, nos decotes exagerados, nos estilos arranjados à força, nas tentativas humanas pela integração em grupos; mas não havia sinal dele.
“Ele tinha prometido que me adicionava. Qual é a dele? E esta gaja? Deve pensar que por ter mais de 1000 amigos já é alguém. É só gajos a comentar e a pôr gosto nas fotos! E que bela coincidência ela estar solteira! Que exibicionista.” 
A casa estava em silêncio; os irmãos mais novos dormiam, os pais ressonavam, os vizinhos repousavam inconscientemente.
3 da manhã. “Amanhã tenho de me levantar às oito... ora, oito menos três é cinco... vá, cinco e meia se esperar que a mãe me acorde. Mas amanhã nem o vou cumprimentar, a não ser que ele o faça primeiro... sede... onde está o copo? Era este o meu?... era. Amanhã é português... almoço, Inglês e matemática... boa, esqueci-me dos T.P.C.... olha, que se lixe, peço ao Miguel para me ajudar durante Inglês...”
Acorda Ana! Já estás atrasada!
“Pijama... camisola... calças, meias... de manhã pareço sempre mais magra no espelho do quarto...”.
Bom dia, preguiçosa! Bom dia, ranhoso!
“Estava mesmo a precisar de lavar a cara... olha esta espinha! Desculpa mas não podes ficar na minha cara...Á!”
O pai olhava para o jornal enquanto automaticamente repetia o mesmo “Bom dia” de todos os dias. Os irmãos devoravam cada um a sua torrada. Um era esquerdino, o outro destro. Eram gémeos e vestiam-se de igual, sentados frente a frente. Pareciam o reflexo um do outro. A mãe reclamava e falava mais do que todos juntos. O pai levou a filha à paragem de autocarro. A mãe levou os filhos à escola.
Ana sentou-se num dos bancos de trás do autocarro, e ali, como todos os dias, a sua mente despertou das profundezas, como se de uma prisioneira se tratasse, querendo provar uma nesga de liberdade. Analisou as pessoas que entravam e saiam. Deduziu como seriam as suas vidas. Viu os raios de sol formarem um arco-íris na janela. Pensou na física por detrás. Não chegou muito longe. Ponderou por momentos se a vida teria sentido. Saiu do autocarro sem respostas, trancando de novo esse seu lado filósofo nas profundezas do seu ser. Pôs os auriculares. Justin Bieber. Só naquele curto percurso se permitia ao luxo de ouvir o que realmente gostava. As amigas são mais adeptas de Muse e outros tipos de rock, julga-la-iam.
Desligou o Ipod. Bons dias às amigas. Já falavam de alguém - não costuma ser bem.
Entrou na conversa, e não saiu. Sim, ela é tão gorda. Credo, ganhou tantas borbulhas! Ouvi dizer que é porque fuma! O namorado influenciou. É tão burrinha, coitada.
Ele apareceu. Nem a olhou nos olhos. Reprimiu os pensamentos, reprimiu as palavras.
O professor de Português falava de um tal Saramago. De um tal ensaio que ele fez. Depois virou-se para a gramática. “Ele tem sempre aquele tique de semicerrar os olhos ... E nunca vê o João e o Ricardo a jogarem Candy Crush... se não estivesse tão perto também jogava... estou com pouca bateria, e a ficar com pouco espaço para desenhar no caderno...”.
Almoço. Um novo alvo a criticar.
Inglês. “ O Miguel é sempre tão prestável. Tenho a certeza que está caídinho por mim.”
Matemática.
“Isto irrita-me tanto! Para que raio é que esta merda serve? Triângulos e mais triângulos!”.
Autocarro e silêncio.
Sem estar condicionada, apesar de não o saber, lá libertou a mente outra vez, por mais dez minutinhos, enquanto o corpo descontraía e os olhos paravam quietos. Existência, moral, ética, o Universo e o infinito foram os tópicos desta viagem, interrompidos apenas pela mensagem do pai.
Casa.
Os irmãos brincavam, a mãe arrumava, o pai... não sabia, nem se interessava.
Facebook.
Girar a roda no meio do rato. Youtube: One Direction. As colunas estavam bem alto, sem vergonha. “ Não acredito... ele está numa relação, e é complicado... porque é que ele não me disse?! Queria ter-me numa prateleira... Tenho que contar à Joana!”
Uma da manhã. Já todos dormiam. Ana desabafara tudo. Estava cansada, queria dormir. Foi jogar Candy crush. Quando o jogo lá permitiu, deitou-se sem conseguir esquecer o rapaz. Imaginou um milhão de coisas que podiam ter acontecido na vez do que aconteceu. Adormeceu.
Sonhou com nada e acordou.
Arrastou-se até à casa de banho e olhou-se ao espelho.
Uma borbulha, murmurou com voz de sono. Arregalou os olhos. Porra, comentou, mas que cena! Levou as mãos à cabeça. O que se passa?, perguntou, de voz a revelar preocupação. Cala-te! Cala-te! Cala-te! Nada funcionava. Um frenesim de palavras invadiam-lhe a boca.
Está tudo bem, Ana?
Não sei! Acho que tenho que me deitar!
Deitou-se. Ia sussurrando palavras, sem as controlar. Faziam sentido. Eram uma longa cadeia de ideias que reflectiam como se sentia, o que via, o que imaginava... quase pareciam os seus próprios pensamentos.
Não... não pode ser... murmurou. Devo estar num daqueles dias em que estou demasiado desnorteada para pensar direito.
Levantou-se da cama e foi à cozinha onde já toda a família comia.
Que seca, já acabaram os cereais... passa-me o leite... dá-me uma colher. Nada foi demasiado invulgar. Sentia-se um pouco mecânica demais, como se não soubesse o que iria dizer antes de o dizer, mas acertando sempre no que tencionava dizer. Era estranho, mas até o pai a deixar na estação não se sentiu de todo desagradável. Só quando entrou no autocarro, apinhado de velhotes e jovens, é que as coisas começaram a ficar absurdas. No banco do costume, olhando pela janela, a voz soltou-se qual a de um orador experiente:
O tempo não passa para todos de igual forma... É claro que a nossa própria noção de tempo nem é a mais correcta. Somos seres tridimensionais, e imaginamos o tempo como uma quarta dimensão que percorremos num só sentido, mas se fossemos bidimensionais, então a dimensão que intuímos como sendo a profundidade seria o tempo. Desta maneira, o tempo é ainda mais relativo do que as teorias de Einstein sugerem. Depende do número de dimensões que são necessárias para se compreender uma realidade de determinado ser consciente. E falando em consciência, como posso saber que vocês que me olham têm uma...?
E assim continuou a palestra acerca dos temas mais profundos no autocarro, dada pela Ana, aluna do 11º ano de Ciências. Todos a observavam com estranheza e ouviam-na com reflexão, à medida que ela corava mais e mais, sem se conseguir controlar.
Finalmente, chegando ao seu destino, pendurou os auriculares nas orelhas e pôs quase no máximo o senhor Bieber. Automaticamente começou a cantarolar as letras, no ritmo certo mas antes do tempo.
As amigas surgiam no seu campo de visão. Rapidamente desligou o Ipod. Uma ou outra palavra se soltou da sua boca até as alcançar, mas quando a cumprimentaram tudo o que conseguiu fazer foi sorrir e pensar “Bom dia”.
Passou o dia muda, murmurando por vezes uma ou outra coisa inaudível.
Quando o dia estava no fim, ela já estava em pânico devido à persistência da sua condição. Tenho de ir ao médico, murmurava repetidamente, para ouvir de seguida a mesma frase ecoada na sua mente.
A Joana perguntou-lhe o que se passava com ela, ao que ela pensou:”Não sei! Sempre que quero falar, penso! E não consigo controlar o que digo!”, permanecendo em silêncio, de olhos arregalados.
Acho que estás muito estranha. Deves estar a precisar de repousar. Ana acenou com a cabeça.
Nova palestra no autocarro. Desta vez, os que já a tinham ouvido de manhã, aplaudiram.
O pai foi buscá-la à paragem. Ana contou-lhe o seu dia, explicando que não se estava a sentir bem e que no dia seguinte queria ficar em casa a repousar. O pai não percebeu muito bem, mas concordou com a filha que seria o melhor a fazer.
Nessa noite, Ana adormeceu inquieta, procurando distrair-se dos próprios murmúrios – por vezes sussurros – que deslizavam da sua boca em filinha indiana.
Na manhã seguinte acordou com os gémeos aos pés da cama, a observá-la com entusiasmo.
Então? Não pares agora! Queremos saber como acaba! Consegues matar o grilo gigante com a espada mágica, ou não?
“Mas que raio estão para aí a dizer?”. Silêncio nervoso. Já sei, disse Ana de súbito, indo buscar um papel e um lápis.
O que raio estão para aí a dizer? Verbalizou a jovem enquanto escrevia a mesma frase no papel.
Tu falaste enquanto dormias! E estavas a contar uma história mesmo espectacular!
Imediatamente antes de tomar as conclusões óbvias, ouve-se um estrondo vindo da cozinha. A mãe tinha acabado de lançar uma jarra de vidro contra a parede, por pouco falhando o pai, que não se calava.
A mãe saiu de casa, furiosa, magoada. O pai levou os miúdos à escola e Ana - que não teve coragem de se pronunciar de modo a ficar em casa - à paragem, nem por um segundo se calando. Estava cada vez mais assustado.
Na paragem, sozinha, Ana concluiu: o pai também foi infectado.
Aquele dia foi como o dia anterior, talvez melhor pois Ana já controlava melhor o que dizia, ou pelo menos quem a ouvia. Ia construindo as suas teorias sobre o que se passaria, mas não chegava a grandes soluções que resolvessem o problema. A ideia de escrever o que pretendia dizer, no entanto, revelou-se útil durante as idas ao quadro em Matemática.
Em casa o ambiente estava negro. O pai e a mãe não se podiam ver. O pai fechara-se no quarto, para evitar dizer o que não queria a quem não queria, soltando um berro de quando em vez.
No dia seguinte, a mãe acordou a discutir sozinha. Reclamava de tudo e mais alguma coisa, dando apenas tempo para respirar.
No dia depois foi a vez dos gémeos. Ana reparou que não tinham mudado muito, para além do facto de não conseguirem pregar partidas um ao outro, pois denunciavam-se sempre antes. Afinal de contas eram crianças. Costumam ser bastante transparentes.
O mês foi passando e toda a gente da vida da Ana foi ficando contagiada com o Síndrome da Má Língua – o nome que ela lhe deu. Ana ainda tentou explicar aos outros infectados como se poderiam controlar, mas as pessoas conseguiam ser genuinamente más – piores do que a língua – e iam dizendo literalmente tudo da boca para fora, sem dar tempo a segundas reflexões. Assim era esta doença. Ana não passa de uma chica-esperta com a mania que sabe resolver tudo, só porque não está tão infectada como a gente, diziam.
Ao fim de apenas dois meses, os hospitais e centros de saúde da região estavam entupidos. Nos meios de comunicação já se falava no problema. Chamavam-lhe “Fala descontrolada”. Claramente não o caso, mas quem seria Ana para impor a sua ideia. Pequenas mentiras eram semeadas e enormes verdades eram colhidas, juntamente com as tempestades que daí advinham. As redes sociais nunca haviam testemunhado uma alteração de estado civil em massa, assim como nunca se tinha assistido a uma discussão em massa por todas as ruas do país. Como é típico da natureza de quem se julga poderoso, a violência não tardou a instalar-se, e em pouco tempo as ruas eram trincheiras de um enorme campo de batalha. Mães discutiam com filhos que discutiam com namoradas que discutiam com amigas que discutiam com os pais que discutiam com avós que discutiam com deus, senhor desses senhores, que discutia com o diabo que discutia com os anjos que discutiam com mães que discutiam com filhos...
O mundo era uma discussão, e já ninguém sabia o que se discutia. Ninguém se calava, ninguém engolia o orgulho – mesmo que o quisessem, não podiam.
Rapidamente se chegou à conclusão que nunca ninguém iria ganhar a discussão, pois toda a gente era dona da sua verdade, toda a gente era dona da sua mentira, mas ninguém era dono da humildade. Então, como um caracol desconfiado, o povo fechou as portas ao povo. A sociedade fragmentou-se em famílias que confiavam umas nas outras. Conjuntos de pessoas que iam desde um triste elemento que consigo mesmo discutia, até conjuntos de dez – parecia ser o máximo de elementos que se podia haver sem gerar conflitos.

Ana acordou sobressaltada. O coração disparava o sangue como se fosse um canhão. A cabeça detinha todos os pensamentos, não a boca.
Estás ofegante! Sonhaste com o quê?, perguntou o pai que passava pelo quarto.
Ana olhou para o pai, pensativa.
Com nada, penso eu.


Giuseppe Jordão

Sem comentários:

Enviar um comentário